Ferry
2022


No ferry, em direcção a sul, Vera e Albano. Fugiam, ainda que não o soubessem.  Na margem norte do rio, estava a cidade e os fantasmas de quantos os haviam perseguido, existentes e imaginários. No nevoeiro, tudo isso era difícil de ver. A mulher encostou a cabeça ao ombro do homem e deram as mãos. Em diante, o desconhecido. E, sobre
o desconhecido, um anel de neblina nascendo das águas negras.

Relógio d’Água, 2022.





Três Histórias de Esquecimento

2021


As três histórias reunidas em Três Histórias de EsquecimentoA Visão das Plantas, Maremoto e Bruma — nasceram de uma afirmação do filósofo britânico Peter Geach: “Talvez um homem possa perder a sua última chance quando é novo, e depois viver até ser velho: viver contente e sentir-se em casa no mundo, mas aos olhos de Deus estar morto.” Três homens, encarnações do desespero perante perguntas a que a História não responde. Celestino, um traficante de escravos de regresso a casa, emparedado num jardim, em A Visão das Plantas; Boa Morte da Silva, arrumador de carros, ex-combatente da Guerra Colonial, deixado à sua sorte numa rua de Lisboa, em Maremoto; Bruma, duplo fantasioso do escudeiro negro que lia histórias ao pequeno Eça de Queiroz, em Bruma.


Relógio d’Água, 2021 / França: VH Éditions (formerly: Hamy) / EUA: Farrar, Straus & Giroux.




Os Gestos — Notas no Regresso a Casa
2021


Os Gestos reúne notas de regresso a casa sob a forma de migalhas deixadas no caminho. Anotações biográficas, ficções curtas, ensaios mínimos, fixações, sinais, lembretes, bilhetes, notas de leitura, acenos: memorabilia das mãos que nos dão a mão quando caímos.


“Se eu te ensinar como se apanha um fantasma, abrirei a porta da minha casa, para que nela entres e faças abater uma chuva de pedras sobre o meu quarto enquanto durmo. Mas, se eu não te ensinar como se apanha um fantasma, imaginarás a minha casa e o meu sono. Deitar-te-ás comigo na minha cama, choverão sobre ti as rochas que sobre mim choverem. Por isso, terás de confiar que se apanha um fantasma como te digo. Deixando que se esconda atrás da cortina e que o vento, soprando a cortina, te deixe ver a sua boca. Que depois tratarás de calar do jeito que te ensino, cortando-lhe os lábios e fazendo da sua língua uma chama.”



Relógio d’Água, 2021.



Maremoto
2021


A carta de Boa Morte da Silva, arrumador de carros, a Aurora, a filha que não conheceu.


“Dor de pai procura coração da filha até ao fim do mundo. Vou esconder-te da minha dor, minha Aurora. Vou cegar minha dor para a minha dor não encontrar teu coração. Que a minha dor nunca encontre o teu caminho, Aurora. Que a minha dor nunca te encontre.”



Relógio D’Água, 2021. / Alemanha: Unionsverlag (Barbara Leß-Correia Mesquita, trad.).



Regras de Isolamento — com Humberto Brito
2020


Uma escritora e um fotógrafo, um casal, vivem em torno da casa, fechados em casa, durante o estado de emergência. Anotações fotográficas, ficções breves, ensaios e crónicas, compõem Regras de Isolamento, o registo da passagem desses dias.


“Em São João da Madeira, onde nunca fui, um casal amigo, Daniel e Sofia, cultiva uma horta. Vivem numa casa velha. Ele é pintor, ela faz banda-desenhada. Nunca nos vimos. Trocamos postais, imagens, clipes de som, por correio e por telefone. Vivem tempos de incerteza: com pouco dinheiro e depois de tudo ser sido cancelado. Esta Primavera, vi serem plantados os nabos e as batatas, e a chegada das joaninhas ao quintal. De vez em quando, estarão tristes e passam dias sem nos dizerem nada. Como serão as suas caras? Sei que ele é alto e louro e ela morena, e que usa óculos. Só falámos ao telefone uma vez e
a voz dele não batia certo com a voz dele que tinha dentro de mim. Do Daniel, conheço apenas a caligrafia, as fotografias e os desenhos, que nos envia. Dela, menos ainda: alguns livros, perfis desfocados, o traço dos seus desenhos. Questiono-me, quando penso nestes amigos, se a condição de sermos amigos não é que nunca nos tenhamos conhecido cara a cara: se a distância não é, às vezes, a condição da amizade. Tantos amigos próximos desbaratados, que quase parece castigo que o entendimento surja com aqueles cuja voz raramente ouvimos, cujas mãos nunca tocámos.”



FFMS, 2020.


As Telefones
2020


A história telefónica e atribulada de Filomena e Solange, mãe e filha.


“Não conheço o teu corpo, Filomena. Não conheço o meu corpo. De olhos fechados, não me lembro da tua cara. De olhos fechados, não sei como é a minha cara. Conhecemo-nos por telefone. Na autoestrada, de soslaio, um cemitério de cabines telefónicas, à entrada de Lisboa. É o lugar onde as desmontam, agora, que já não as vemos nas ruas. Alinhados, os paralelepípedos de vidro e alumínio são um hospital de armaduras. Algumas começaram a ser desmembradas. Portas, dobradiças, fios, auscultadores, pernas, braços, entranhas amontoados em pilhas. As cabines ainda intactas lembram tatus futuristas ou, recuando no tempo, o exército na iminência do massacre, escudo contra escudo, elmo contra elmo, tenso, beligerante, mas inofensivo como no interior de um cristal. Bobele Yo, bobele Yo. Somente Tu, somente Tu. Já não consigo lembrar-me de como era passar a tarde fora, incontactável, sem telemóvel. À minha volta, comenta-se o litígio entre a companhia dos telefones e o governo. Falências, corrupção, tribunais, atrasos, indemnizações, passa-culpas. Continuamos, desafiando os aguaceiros. Perco de vista o cemitério de cabines. À esquerda, o estuário do Tejo está coberto de nevoeiro. Mas fiquei ali, como se, perdida entre as cabines, um dos telefones pudesse tocar.”



Relógio D’Água, 2020.



A Visão das Plantas
2019


Os últimos dias de Capitão Celestino, figura da infância de Raúl Brandão, no seu jardim.


“Estaria o capitão atrás da romãzeira? Seria ele a sombra, ou fora um rato, ou um lobo, o velho, pingando suor, caindo ao chão, e ela ao fundo, sem o amparar, numa lua-de-mel pelo campo enquanto a casa os esperava do outro lado do ribeiro, noiva dos seus últimos dias, que viera para o ensinar a partir, deixando-o tomar o seu tempo, capitão, capitão, tão cego, tão longa a tarde e ele tão velho e ela tão paciente, que a sua missão era ver morrer o noivo, os pulmões, o fígado, o coração a saltarem-lhe da boca, “Capitão? Estais aí?”. Do capitão, nada. A noite caindo de novo e os dois a monte, mas vendo-o quase menino, assustado, desfeito, em desespero, ela sentou-se e estendeu a saia no chão e deitou-o nela, pôs-lhe a cabeça nos joelhos, deu-lhe festas na cara, fechou-lhe o olho com as mãos, aqueceu-o com o ar que lhe saía da boca, soprando no seu pescoço como uma ama ao seu menino, adiando por mais um dia, mais uma hora, mais uma noite, a partida do noivo. “Capitão”, gemia ele e, quase adormecendo, tremia.



Relógio D’Água, 2019. / Alemanha: Im Auge der Pflanzen, Unionsverlag, 2022  (Barbara Leß-Correia Mesquita, trad.). / Argentina: Edhasa.



Pintado com o Pé
2019


Ensaios e crónicas [2006-2019].


“O título deste livro é roubado à legenda de um postal, que me pareceu, a certa altura, um bom conselho literário. Relendo estes textos, escritos entre 2006 e 2019, pareceu-me folhear uma colecção de postais desses anos. Não saberia dizer se cheguei a enviá-los, nem a quem se dirigem, o que talvez diga um pouco sobre quem os escreveu e um pouco sobre eles.”



Relógio D’Água, 2019.



Luanda, Lisboa, Paraíso
2018


A história de Cartola e Aquiles, pai e filho, de Luanda a Paraíso.


“O ponto alto daqueles anos foi o casamento de Severino, pedreiro da obra, um órfão de dezanove anos que convidou Cartola para padrinho. De camisa lavada e casaco de bombazina escovado, o Papá foi o soba da cerimónia, à qual emprestou a solenidade de um patriarca. Despejou no cabelo meio frasco de água-de-colónia. Esfregou a testa com manteiga de cacau. Até afiou a navalha para fazer melhor a barba. Casaram na capela de Santa Bárbara, num pré-fabricado no Bairro n.º 5, a caminho de Chelas. Em troca de quinhentos paus e de um diapasão que trouxera de Luanda, o padrinho do noivo comprou a um ourives ambulante um fio de prata dourada com um pequeno corno para oferecer à noiva. Os primos dela receberam pai e filho como se fossem da família. E Cartola e Natacha abriram a pista na garagem de Quimzé ao som de Urbano de Castro, motivo para uma salva de palmas, assobios, vivas, «Cartola é fixe!, Cartola é fixe!».”



Companhia das Letras Portugal, 2018. / Brasil: Companhia das Letras, 2019. / Eslováquia: Lisabon, Luanda, Raj, Portugalský inštitút, 2022 (Silvia Slaniková, trad.) / China: Sichuan Literature & Art Publishing House, 2022 (trad. Sang Dapeng) / EUA: Farrar, Straus & Giroux.



Ajudar a cair
2017


Um Verão no Centro Nuno Belmar da Costa, uma comunidade de pessoas com paralisia cerebral.


Saio à noite para roubar plantas. Às escuras, ninguém dá por mim caminhando pelo Bairro. Levo uma tesoura de cortar papel e um saco da fruta. Mesmo assim receio ser apanhada e, ao cortar cada pé, faço uma cara desentendida. Nunca me vi ao espelho a fazer essa cara, mas não preciso de ver. Chegada a casa, abrindo o saco, a pernada de dama-da-noite quase não deixa sentir o aroma de uma única nota abafada da flor de loendro. Mais difícil é chegar à buganvília, amparada de pé num banco de jardim, alcançando-a com o braço, arriscando um jeito no ombro. Os dedos ficam verde-acastanhados, e só consigo trazer meia dúzia de flores esmagadas, que me tingem a mão de lilás. Ainda por cima, estão carregadas de pulgões. A caça às plantas do Bairro é quase tão breve como será a sua vida, uma vez em casa. Tiro-as do saco e ponho-as em água, em frascos de vidro que costumavam guardar café em pó e grão pré-cozido. Será como sempre. Resistirão pouco e, na base do frasco das que chegarem a ganhar raiz, cairá uma única folha da rua, enquanto as outras folhinhas vingam. Imagino sempre que a folha morta era a que estava em início de vida. Encontra o seu fim enquanto, presas pelo mesmo fio, as outras dão com uma segunda vida. Será um pouco como o Verão em casa, de que morre sempre uma parte. E um pouco como uma casa, onde morre sempre algum Verão.”



FFMS, 2017.



Esse cabelo
2015



A autobiografia capilar de Mila.


“Estar grato por ter um país assemelha-se a estar grato por ter um braço. Como escreveria se perdesse o braço? Escrever com o lápis preso nos dentes é um modo de fazermos cerimónia connosco. Testemunhas afiançam-me que sou a mais portuguesa dos portugueses da minha família. É como se me recebessem sempre com um «Ah! A França! Anatole, Anatole!» como receberam Lévi-Strauss num povoado do interior do Brasil. A única família com quem conseguimos falar é, porém, aquela que não nos responde. Acreditamos que essa família nos interpreta o mundo, quando passamos a vida a traduzir o novo mundo para a sua língua.”



Teorema, 2015. / Brasil: Leya Brasil, 2017. / EUA: That Hair, Tin House Books 2020 (Eric M.B. Becker, trad.) / Relógio D’Água, 2020. / Brasil: Todavia, 2022. / Argentina: Ese Cabello, Edhasa, 2022 (Bárbara Belloc & Teresa Arijón, trad.) / Dinamarca: Det hår, Aurora Boreal, 2022 (Tine Likke Prado, trad.)  / Itália: Questi Capelli, La Nuova Frontiera, 2022 (Giorgio di Marchis & Marta Silvetti trad.) / Catalunha: Els meus cabells, Lletra Impresa Edicions, 2022 (Sebastià Bennasar, trad.) / Egipto: Al arabi.



Fotografia: Humberto Brito.



prémios e distinções
awards and honours



2022: Hamburger Literaturpreise - Literarische Übersetzungen para Bárbara Mesquita por Im Auge der Pflanzen.
2022: Finalista do Oceanos, Prémio de Literatura em Língua Portuguesa por Maremoto.
2022: Finalista do Prémio Literário Fernando Namora por Maremoto.
2022: Finalista do Prémio Pen Clube Narrativa por Maremoto.
2022: Finalista do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB por Maremoto.
2022: Finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa por Maremoto.
2021: Finalista do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB por As Telefones.
2020: Finalista do PEN America Translation Prize por That Hair, com Eric M.B. Becker.
2020: Oceanos, Prémio de Literatura em Língua Portuguesa por A Visão das Plantas, 2º lugar.
2020: Finalista do Prémio Literário Fernando Namora por A Visão das Plantas.
2020: Finalista do Prémio Pen Clube Narrativa por A Visão das Plantas.
2020: Finalista do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB por A Visão das Plantas.
2019: Oceanos, Prémio de Literatura em Língua Portuguesa por Luanda, Lisboa, Paraíso.
2019: Finalista do Prémio Pen Clube Narrativa por Luanda, Lisboa, Paraíso.
2019: Finalista do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB por Luanda, Lisboa, Paraíso.
2019: Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz por Luanda, Lisboa, Paraíso.
2019: Prémio Literário Fundação Inês de Castro por Luanda, Lisboa, Paraíso.
2018: Finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa 2018 por Esse Cabelo.
2016: Prémio Novos 2016 Literatura por Esse Cabelo.
2016: Finalista do 8º ciclo da Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative.
2013: Prémio de Ensaísmo Serrote por “Saudades de Casa”, Instituto Moreira Salles, 3º lugar.
2010: Prémio Primeiras Teses 2010, CLP, Universidade de Coimbra por Amadores (2006).



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Tema Livre é a minha coluna na Quatro Cinco Um, com Humberto Brito.