A Visão das Plantas
2019


Os últimos dias de Capitão Celestino, figura da infância de Raúl Brandão, no seu jardim.


“Estaria o capitão atrás da romãzeira? Seria ele a sombra, ou fora um rato, ou um lobo, o velho, pingando suor, caindo ao chão, e ela ao fundo, sem o amparar, numa lua-de-mel pelo campo enquanto a casa os esperava do outro lado do ribeiro, noiva dos seus últimos dias, que viera para o ensinar a partir, deixando-o tomar o seu tempo, capitão, capitão, tão cego, tão longa a tarde e ele tão velho e ela tão paciente, que a sua missão era ver morrer o noivo, os pulmões, o fígado, o coração a saltarem-lhe da boca, “Capitão? Estais aí?”. Do capitão, nada. A noite caindo de novo e os dois a monte, mas vendo-o quase menino, assustado, desfeito, em desespero, ela sentou-se e estendeu a saia no chão e deitou-o nela, pôs-lhe a cabeça nos joelhos, deu-lhe festas na cara, fechou-lhe o olho com as mãos, aqueceu-o com o ar que lhe saía da boca, soprando no seu pescoço como uma ama ao seu menino, adiando por mais um dia, mais uma hora, mais uma noite, a partida do noivo. “Capitão”, gemia ele e, quase adormecendo, tremia.”



Relógio D’Água, 2019.
Alemanha: Im Auge der Pflanzen, Unionsverlag, 2022  (Barbara Leß-Correia Mesquita, trad.).
Argentina: Edhasa.





A Blind Man in His Garden, Homer, Alaska, July, 1984, Joel Sternfeld.