Onde Queremos Viver (com Humberto Brito).
Lisboa: Relógio D’Água, 2026.
“É de madrugada na Washington Square. Num quarto de hotel com vista para o fantasma de Kertész, penso duramente no que disse a Brassaï quando este o visitou em Nova Iorque, em 1963. “Estou morto”, afirmou: “a pessoa que revês é um morto”. A sua inadaptação americana é uma tragédia mal conhecida. “Todos o julgávamos morto há trinta anos”, relata Szarkowski a respeito de um velho que visitou certo dia o Departamento de Fotografia do MoMA para deixar dois sacos de compras cheios de imagens. Aquele que vês é um morto.
Sou atravessado por um pânico sem forma. Para afastar o pensamento das palavras de Kertész, desvio a atenção para o terem sido ditas em francês, Je suis mort. “Nome de perfume”, penso, acho que sorriste no escuro.”
Onde Queremos Viver reúne, entre vários inéditos, as crónicas de Djaimilia Pereira de Almeida e Humberto Brito publicadas na revista Quatro Cinco Um. Escritas a partir de várias cidades, marcadas por uma prolongada estadia nova-iorquina, as crónicas glosam o ideal de Robert Frank segundo o qual “o modo como vivemos é já político” e procuram a luz nas margens da escuridão das grandes cidades.
— em breve