Onde Queremos Viver (com Humberto Brito)
Lisboa: Relógio D’Água, 2026

“É de madrugada na Washington Square. Num quarto de hotel com vista para o fantasma de Kertész, penso duramente no que disse a Brassaï quando este o visitou em Nova Iorque, em 1963. “Estou morto”, afirmou: “a pessoa que revês é um morto”. A sua inadaptação americana é uma tragédia mal conhecida. “Todos o julgávamos morto há trinta anos”, relata Szarkowski a respeito de um velho que visitou certo dia o Departamento de Fotografia do MoMA para deixar dois sacos de compras cheios de imagens. Aquele que vês é um morto.”

(...)

“Leva-me a pensar que na vida existe a situação de cada um, contingente, arbitrária, determinada pela economia, pelas condições de partida, pela geometria geográfica, política e geopolítica, afectiva e ambiental para que se nasce. Mas existe também, para cada pessoa, a sua situação poética, que se prende com o que vamos fazendo de nós, à medida que o tempo vai passando. Não cabe nisto aquilo que foi determinado por outros antes de nascermos, as condições que não podemos mudar, os nossos pais, países, condição social, etc. É, antes, a parte ínfima da vida em que nos vamos criando, mesmo sem dar conta de que nos criamos. A parte em que cada um é o seu próprio autor, o nosso exíguo campo de manobra, de batalha, a breve página que nos cabe a nós escrevermos.”



— Em Fevereiro na Relógio D’Água.