Ajudar a cair
2017


Um Verão no Centro Nuno Belmar da Costa, uma comunidade de pessoas com paralisia cerebral.


“Saio à noite para roubar plantas. Às escuras, ninguém dá por mim caminhando pelo Bairro. Levo uma tesoura de cortar papel e um saco da fruta. Mesmo assim receio ser apanhada e, ao cortar cada pé, faço uma cara desentendida. Nunca me vi ao espelho a fazer essa cara, mas não preciso de ver. Chegada a casa, abrindo o saco, a pernada de dama-da-noite quase não deixa sentir o aroma de uma única nota abafada da flor de loendro. Mais difícil é chegar à buganvília, amparada de pé num banco de jardim, alcançando-a com o braço, arriscando um jeito no ombro. Os dedos ficam verde-acastanhados, e só consigo trazer meia dúzia de flores esmagadas, que me tingem a mão de lilás. Ainda por cima, estão carregadas de pulgões. A caça às plantas do Bairro é quase tão breve como será a sua vida, uma vez em casa. Tiro-as do saco e ponho-as em água, em frascos de vidro que costumavam guardar café em pó e grão pré-cozido. Será como sempre. Resistirão pouco e, na base do frasco das que chegarem a ganhar raiz, cairá uma única folha da rua, enquanto as outras folhinhas vingam. Imagino sempre que a folha morta era a que estava em início de vida. Encontra o seu fim enquanto, presas pelo mesmo fio, as outras dão com uma segunda vida. Será um pouco como o Verão em casa, de que morre sempre uma parte. E um pouco como uma casa, onde morre sempre algum Verão.”



FFMS, 2017.