Pintado com o Pé
Lisboa: Relógio D’Água, 2020
A primeira parte deste livro reúne textos dispersos, escritos pela autora entre 2013 e 2019 e que vão da crónica ao conto e ao ensaio breve. A segunda parte é formada por dois ensaios, Inseparabilidade e Amadores.
“É uma das partes mais difíceis e bonitas de ser adulta, até agora:
ter de prosseguir sem mestres, sem certezas e sem guias. Ninguém
me dizer o que devo responder, de quem me devo afastar ou aproximar. Não ter quem me diga quem devo amar nem qual o melhor
corte de cabelo, nem em que partido votar. Não adianta sequer
acreditar em Deus, pois Ele conta que eu entenda tudo sozinha e
não me facilita a vida. Desorientada, às vezes penso que ser adulta
é deixar que Deus jogue à cabra‐cega comigo. A maioria das vezes resigno‐me. Entrego‐me aos meus amores, à minha casa, uma,
duas, três caras amigas, aos sembas, sambas e sonatas que me vão
salvando a vida. Mas logo esconder‐me atrás dessa muralha acolhedora me parece cobardia e percebo que tenho de molhar os pés
na água, dançar mesmo sem saber nada.”