Ferry
2022


“No ferry, em direcção a sul, Vera e Albano. Fugiam, ainda que não o soubessem. Na margem norte do rio, estava a cidade e os fantasmas de quantos os haviam perseguido, existentes e imaginários. No nevoeiro, tudo isso era difícil de ver. A mulher encostou a cabeça ao ombro do homem e deram as mãos. Em diante, o desconhecido. E, sobre o desconhecido, um anel de neblina nascendo das águas negras. Ela pousou a cabeça sobre o ombro do amante, ele perdeu a força nas pernas, diante da água, o peso do mundo abateu-se nas suas costas e mandou-o abaixo.
    E, então, os dois tropeçaram no convés do ferry — e, entreolhando-se, sorriram. Havia cessado na sua vida um prolongado ciclo soprado do começo dos tempos por um dragão. Haviam-se conhecido há trinta anos. Não era do amor que fugiam, mas das formas como a vida havia sido contrária a essa coisa certa. Sacudiram os joelhos. Ela chegou para si a mochila que levavam. A viagem durava uma hora e, sem combinarem, acharam-se em silêncio.” 

Relógio d’Água, 2022.










Roger délivrant Angélique, Felix Vallotton, 1907.